Há pessoas que entram na política porque sonharam com isso desde cedo. Outras chegam por caminhos inesperados. No meu caso, a política foi consequência da vida.
Nasci, em Maringá, há 62 anos. Foi aqui que cresci, construí minha família, fiz amigos e aprendi a enxergar a cidade para além das ruas e dos prédios. Aprendi a olhar para as pessoas. Talvez por isso eu nunca tenha imaginado que, algum dia, ocuparia uma cadeira na Câmara Municipal.
Durante 42 anos, eu trabalhei como joalheiro. Moldava metais preciosos com as mãos, enquanto a alma encontrava abrigo nas artes plásticas. A vida seguia seu curso entre oficinas, exposições, movimentos sociais, reuniões comunitárias e atividades ligadas à Igreja Católica. Nesses espaços é que aprendi uma das maiores lições da vida: ninguém transforma uma cidade sozinho.
Lembro dos encontros com catadores de materiais recicláveis, artesãos, lideranças comunitárias e agentes culturais. Pessoas simples, muitas vezes invisíveis aos olhos de quem passa apressado pelas ruas, mas que carregam uma enorme capacidade de organização e resistência.
Por volta de 2007, participei da criação da Escola de Cultura, Fé e Política. Era um espaço diferente. Não formávamos candidatos. Nós formávamos cidadãos com capacidade de questionamento. Ali, discutíamos a relação entre política, cultura, fé e participação popular.
Explicávamos que a política não começa nem termina nas eleições. Ela está no conselho de saúde, na associação de moradores, na reunião do bairro, na decisão de participar da vida coletiva.
Costumava dizer aos alunos uma frase que continuo acreditando até hoje: se as pessoas de bem não se colocarem à disposição para participarem da política, alguém ocupará esse espaço e, talvez, essa pessoa não tenha os mesmos compromissos com a comunidade. Foi essa convicção que me levou a aceitar o desafio de disputar a primeira eleição.
Em 2008, coloquei meu nome à disposição do partido na disputa por uma vaga na Câmara Municipal. Não fui eleito. Faltou pouco. Quatro anos depois, em 2012, veio a vitória. Em 2013, tomei posse como vereador de Maringá.
O mandato trouxe experiências inesquecíveis. Entre elas, uma que guardo com especial carinho. Naquela época, os motoristas do transporte coletivo dirigiam os ônibus e cobravam as passagens ao mesmo tempo. Parecia algo normal para muitos, mas, pra mim, era uma situação perigosa.
Apresentei um projeto para acabar com aquela dupla função. Surgiram muitas dúvidas, realizamos debates, porém, ao fim vencemos a resistência.
Empresários, trabalhadores, usuários do transporte e moradores participaram das discussões. Em uma sessão itinerante realizada na Vila Santo Antônio, bairro onde moro, o salão paroquial ficou lotado. Pessoas ocupavam todos os espaços possíveis. A comunidade queria falar, ouvir, participar.
Naquele dia, ficou evidente que uma boa ideia só ganha força quando é compartilhada com a população. O projeto foi aprovado e transformou-se em lei que, certamente, evitou muitos acidentes e poupou vidas.
A principal lição dessa história é que a política não vive das respostas e sim das perguntas. Perguntar se determinada situação é justa. Perguntar quem ganha e quem perde com uma decisão. Perguntar se existe uma alternativa melhor. Perguntar, sobretudo, se estamos ouvindo quem mais precisa ser ouvido.
Foi essa mesma lógica que guiou os debates sobre o trabalho aos domingos. Não se tratava apenas de abrir ou fechar supermercados. A discussão envolvia algo maior: qual cidade queremos construir? Uma cidade onde apenas os grandes sobrevivem ou uma cidade que também protege o pequeno comerciante, o açougue da esquina, a padaria do bairro, a mercearia familiar?
Nem sempre as respostas são simples. Mas as perguntas precisam ser feitas.
Em 2020, aceitei outro desafio: disputar a eleição para prefeito de Maringá. Era o auge da pandemia. Um período de medo, incertezas e profundas divisões políticas. Não venci a eleição. Mas saí dela com a sensação de ter contribuído para um debate necessário. Afinal, a política não pode ser medida apenas pelo resultado das urnas. Ela também se mede pela qualidade das discussões que provoca.
Hoje, acompanho a vida pública com o mesmo otimismo. Existe a possibilidade de retornar à Câmara Municipal no próximo ano. Se isto acontecer, voltarei com a mesma disposição que tive no primeiro dia de mandato: ouvir, dialogar e construir. Eu continuo acreditando que a democracia não nasce do silêncio. Ela nasce da conversa e do respeito entre aqueles que pensam diferente. Ela nasce da coragem de perguntar e, sem dúvida, são as perguntas que continuam movendo a cidade.
(Ex-vereador Carlos Emar Mariucci).