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LEGISLATIVO EM MIÚDOS: O elo invisível entre a cadeira e a calçada
Assessoria de Imprensa - CMM 20/05/2026

A claridade nas paredes do plenário da Câmara Municipal contrasta com a formalidade do cinza e preto dos móveis que compõem aquele espaço público. 


O cinegrafista ajusta o microfone na lapela do entrevistado com a tranquilidade de quem conhece bem o ofício. Sou repórter na assessoria de comunicação, funcionária da Casa há 13 anos, acostumada a ver o Poder de perto e de longe.


Olho para o Adriano, dou um sinal e pergunto: "Posso começar?" e o gravador inicia sua atividade.


Diante de mim está o tenente Edson, ou melhor, Edson Luiz Pereira, 63 anos, vereador de Maringá entre 2013 e 2016. Sua postura ereta remete à herança da farda militar que vestiu durante 30 anos de serviços prestados. Hoje, ele me conta com um sorriso leve que vive uma rotina de paz: cuida da família e viaja de moto com a esposa. A história que viemos resgatar de sua memória não está vinculada ao vento no rosto pelas estradas, mas sim ao ritmo frenético das engrenagens públicas.

Nossa conversa volta no tempo, mais precisamente a 2014. Edson não planejava entrar para a política. O pragmatismo militar o afastava dos palanques. Porém, quis o destino que ele aceitasse o convite do então prefeito Silvio Barros para assumir a Diretoria de Trânsito de Maringá. Ali, nascia o sistema binário das quatro principais avenidas da cidade: São Paulo, Herval, Duque de Caxias e Paraná. Um desafio de engenharia e paciência que virou referência nacional.

Este foi o início da sua caminhada na vida pública. Embalado pelo reconhecimento, disputou uma vaga no Legislativo e, para sua surpresa, conquistou 2.406 votos. Entrou na Câmara em sétimo lugar, cumprindo o mandato de 2013 a 2016. Naquela época, a Casa vivia uma harmonia peculiar. Edson trabalhou lado a lado dos presidentes Ulisses Maia e o saudoso Chico Caiana, assumindo a função de primeiro-secretário.

 por ser formado em Direito e Administração.

Mas o que move o tenente Edson nesta entrevista não são as glórias protocolares. É uma inquietação que ele carrega no peito.


“Sabe, Betânia”, ele me diz com a autoridade de quem viveu o sistema por dentro. “Eu tinha uma ideia de política totalmente diferente. Eu acreditava que, se fui escolhido pelo povo, tinha que prestar contas a ele.”, revela o militar da reserva, formado em Direito e Administração de Empresas.


Tenente Edson relata, com um misto de ironia e melancolia, o dia em que organizou sua primeira prestação de contas no Jardim Alvorada, reduto que engloba oito bairros. Esperava duzentas pessoas prontas para cobrar, sugerir e fiscalizar. Apareceram trinta e cinco.

Há um silêncio reflexivo no estúdio. Pergunto a ele se o eleitor brasileiro é imaturo ou se apenas padece de uma profunda descrença. Edson não hesita em dividir a culpa. Assume que os próprios políticos ao decepcionarem a população criam um efeito manada onde todos são rotulados pelo mesmo pior denominador comum. Sem a presença do povo nas sessões, o eleitor perde a capacidade de diferenciar quem trabalha de quem apenas tem uma boa retórica de campanha.


“O vereador é o elo entre a comunidade e o prefeito que é quem executa”, pontua o tenente. “Se esse elo quebra, a cidade pára.”


Os números dele são robustos. Foram 8.400 pessoas atendidas em quatro anos, entre as quatro paredes do gabinete e as poeiras das ruas. Mesmo assim, ele sai daquela experiência com uma lição dura sobre a cultura política local. Critica o hábito velado de se valorizar mais o candidato que financia um churrasco de final de semana do que aquele que briga por uma melhoria estrutural para o bairro inteiro.

O tempo da entrevista avança e o gravador consome os minutos finais da nossa entrevista, mas a essência do que o tenente Edson deixa registrado naquela sala vai além do seu mandato passado. É o retrato de um homem que saiu da rigidez da caserna, mergulhou no labirinto da política e, hoje, do alto de sua motocicleta, observa a cidade sabendo exatamente onde os nós, do trânsito e da cidadania, ainda precisam ser desatados.